Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. (...) talvez desilusão seja o medo de não pertencer mais a um sistema. No entanto se deveria dizer assim: ele está muito feliz porque finalmente foi desiludido. O que eu era antes não me era bom. Mas era desse não-bom que eu havia organizado o melhor: a esperança.
(...) mas como adulto terei coragem infantil de me perder? perder-se significa ir achando e nem saber o que fazer do que se for achando.(...)
Esse esforço que farei agora por deixar subir à tona um sentido, qualquer que seja, esse esforço facilitado se eu fingisse escrever para alguém.
Terei que ter a coragem de usar um coração desprotegido e de ir falando para o nada e para o ninguém?
Talvez o que me tenha acontecido seja uma compreensão- e que, para eu ser verdadeira, tenho que continuar a não estar à altura dela, tenho que continuar a não entedê-la. Toda compreensão súbita se parece muito com uma aguda incompreensão.
Não. Toda compreensão súbita é finalmente a revelação de uma aguda incopreensão. Todo momento de achar é perder-se a si próprio. Talvez me tenha acontecido uma compreensão tão total quanto uma ignorância, e dela eu venha a sair intocada e inocente como antes.Qualquer entender meu nunca estará à altura dessa compreensão, pois viver é somente a altura a que posso chegar- meu único nível é viver. Só que agora, agora sei de um segredo.
(...)Até então eu não tivera a coragem de me deixar guiar pelo que não conheço e em direção ao que não conheço: minhas previsões condicionavam de antemão o que veria. Não eram as antevisões da visão: já tinham o tamanho de meus cuidados. Minhas previsões me fechavam o mundo.








